segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

CORRÍAMOS COM TUDO por PIPE ROMÃO

Na segunda metade da década de 60, Jaú era uma cidade de corredores. Corríamos em todas as modalidades: carro, lambretta, kart e até de lancha. O piloto que mais representava a cidade, patrocinado pela agência Simca dos Irmãos Franceschi, era o Pedro Agüera. Corria com o Simca 4, um carro verde e branco, que recebia preparação do seu Eugênio na oficina que ficava nas imediações do Instituto de Educação, onde outrora havia a fábrica de calçados do Muzegante. Pedrinho, como também era chamado, participava das corridas no Autódromo de Interlagos, que naquele tempo existiam mais provas que hoje, como 3, 6, 12 e 24 horas de Interlagos, 1.000 milhas, 500 quilômetros, entre outras. Algumas, pelo circuito externo; outras, pelo miolo, como era chamado o circuito completo. Como não havia transmissão de televisão naquela época, acompanhávamos as corridas pela Rádio Pan-americana, com locução do Barão Wilson Fittipaldi, pai do Emerson e do Wilsinho.

Geralmente em circuitos de rua como Araraquara e Piracicaba, uma dupla corria de Gordini, e posteriormente de Simca quase sem preparação, na categoria “amadores”, que não existe há algum tempo. A dupla era composta por Pedro Izar Neto (Pin) e Sergio Franceschi (Avanti). Este abandonou a carreira após uma espetacular capotagem em Piracicaba; aquele ainda continuou por mais algum tempo.

Havia também corridas de Lambrettas e Vespas. Como eram poucas as ruas asfaltadas na cidade – a maioria era de paralelepípedo – as corridas aconteciam nas imediações da Igreja São Benedito ou na Avenida Frederico Ozanam. Normalmente as “máquinas” usadas para a corrida eram as mesmas que as pessoas usavam no dia-a-dia para lazer ou trabalho. Nelson Cirino tinha uma Lambretta chamada Gostosa. Era moda na época dar nome à Lambretta, e este era pintado no tanque de gasolina. Corriam ainda Bertinho Alves, Nicola Crocce, e tantos outros. O fato mais marcante nessas provas foi protagonizado pelo Roberto Agüera. Seu irmão, Pedro, trouxe de São Paulo uma Lambretta superpreparada para corridas, excessivamente veloz. Havia a recomendação de só acelerar nas retas, mesmo assim evitando aceleração total, e fazer as curvas sem acelerar. No meio da prova, ele já havia ultrapassado o segundo colocado. Com uma volta de vantagem, Roberto se empolgou tanto que esqueceu do pequeno detalhe, e ao fazer a curva em frente do cemitério se estatelou no chão. Mesmo assim se recompôs e ganhou a corrida.

Existia uma equipe de kart, muito respeitada no interior. Os karts eram da marca Mini, pintados de amarelo com o “quadrifoglio” da Alfa Romeo em verde. Bastante pretensioso. Lembro de alguns componentes desta equipe, como Marcílio Giglioti, Gustinho Brovéglio, Zé Fernando, Antonio Paulo, Pedro Izar, Sonia Caldas, Quinho Canhos. O preparador dos carros era o Avanti, que às vezes exagerava na preparação e só na hora da prova pedia ao piloto para maneirar, senão não acabaria a prova: o motor não resistiria. Perdemos uma corrida muito importante, em Barra Bonita, o que quase comprometeu o campeonato. Só não lembro se o piloto era o Gustinho ou o Quinho. As corridas aconteciam em circuitos de rua, em Jaú, Araraquara, Barra Bonita, Piracicaba, e na época era comum a presença de um paulistano, apelidado de Rato, que corria com o Kart número 77. Em 1972 ele se tornaria o primeiro brasileiro a conquistar o título de campeão mundial na Fórmula 1, o fabuloso Emerson Fittipaldi. Desta equipe de kart jauense quase saiu um piloto profissional. Provavelmente teria uma carreira com as mesmas oportunidades do Emerson, quem sabe tão brilhante quanto, então teríamos também um campeão de F-1.

O Quinho Canhos teve em sociedade com o Emerson Fittipaldi, uma fábrica de volantes tipo Fórmula 1. Quando esta sociedade foi desfeita, no acerto de contas Quinho recebeu uma lancha modelo “tamanco” – e realmente se parecia com um –, projetada especialmente para competição. Tinha espaço apenas para o piloto. Trouxe a lancha para Jaú e a usava no Rio Tietê, no rancho do Mandora. Não tínhamos como fazer corridas de lancha, não havia lanchas suficientes. A lancha que mais poderia se aproximar do “tamanco” era a Flaminia, um modelo offshore, para mar aberto, que no projeto original devia ter um motor Corvette ou Maseratti, mas que aqui tinha o “possante” V8 da Simca. O Quinho nunca perdeu uma corrida; corria sozinho.

Quanto ao piloto jauense que quase se profissionalizou, um dia, em outra crônica e com sua autorização revelarei quem foi, talvez contando detalhes de como tudo aconteceu.

Euripedes Martins Romão é economista.
pipe.romao@terra.com.br

Um comentário:

Poemas e Cotidiano disse...

Ai que saudade desse tempo... Linda reportagem!